O fato em uma frase
Uma reportagem da Cointelegraph afirma que o valor mensal transacionado em cartões cripto (débito + crédito) somou cerca de US$ 7,8 bilhões neste mês, um crescimento de aproximadamente 230% em relação ao mesmo período de 2025, e aponta que esse indicador está em trajetória ascendente constante desde 2024. A reportagem não detalha a metodologia de coleta dos dados (se inclui apenas liquidações nas redes Visa/Mastercard, ou também liquidações on-chain próprias de Layer 1), nem indica uma fonte de auditoria independente.
Nota editorial: por que desta vez não vamos simplesmente repetir o número
O princípio editorial da usdtcard.net é: todo número precisa ser rastreável a uma URL de origem específica. Ao escrever esta análise, encontramos uma dificuldade concreta:
- Os números de US$ 7,8 bilhões / 230% citados pela Cointelegraph não indicam o provedor original dos dados (não é a Visa, não é a Mastercard, não é um gráfico clicável da Chainalysis);
- O Visa Onchain Analytics Dashboard, que é publicamente verificável, divulga dados de liquidação em stablecoins, mas sua metodologia mede transferências on-chain de stablecoins, o que não equivale diretamente a “volume de transações em cartões cripto”;
- As emissoras de cartão (Bybit, Crypto.com, Coinbase etc.) não publicaram coletivamente, neste ano, dados de volume mensal com metodologia unificada.
Por isso, este artigo não trata os US$ 7,8 bilhões / 230% como fato estabelecido para tirar conclusões, mas sim como um sinal macro ainda a ser verificado. Todos os julgamentos a seguir partem da premissa de que, mesmo que esse número acabe sendo desmentido, a recomendação prática para usuários de cartões USDT não muda.
Impacto real para usuários de cartões USDT: três perfis
Independentemente de o volume do setor ter subido 230% ou 50%, para quem já tem um cartão na mão, o que realmente afeta o uso diário nunca foi o número macro, mas a página de tarifas do próprio emissor.
Perfil 1: usuário de assinaturas/SaaS no dia a dia
Se você usa principalmente o cartão USDT para pagar assinaturas fixas de baixo valor, como ChatGPT Plus (US$ 20/mês), Cursor Pro (US$ 20/mês) ou Claude Pro (US$ 20/mês), o crescimento macro do volume quase não afeta você — o sucesso nesses casos depende da aceitação do BIN do cartão pelo comerciante da assinatura, não do volume total do setor.
Usuários com foco em rotas da Ásia-Pacífico podem continuar consultando a avaliação do MPCard e o guia de assinatura ChatGPT Plus; quem trabalha com fluxos do Claude Code pode conferir o cenário Claude Code.
Perfil 2: usuário de consumo internacional/viagens
Esse perfil é sensível ao spread cambial, taxas de saque em caixa eletrônico e taxas de liquidação em moeda estrangeira. O aumento do volume do setor pode gerar dois efeitos opostos:
- Lado otimista: emissores reduzem o spread de FX para ganhar market share (em 2024, a Bybit reduziu o spread de liquidação em euros de 1,5% para 1%, evento que foi divulgado publicamente);
- Lado pessimista: emissores aumentam discretamente tarifas ocultas depois que o volume cresce (foi o caminho percorrido pela Crypto.com entre 2022 e 2023).
Recomendamos consultar o ranking geral de cartões cripto 2026 e o levantamento de cartões com menores tarifas, e comparar com a página oficial de tarifas todo fim de mês.
Perfil 3: usuário de recargas de alto valor/nível comercial
Se você faz recargas únicas na casa de milhares de dólares, o que mais importa é o limiar de compliance do emissor, não o volume do setor. Quanto maior o volume, mais frequentes tendem a ser as atualizações das regras de compliance dos emissores — isso é senso comum no setor. Tanto a avaliação do Bybit Card quanto a avaliação do RedotPay foram atualizadas por nós de acordo com as páginas oficiais de limites.
Comparação histórica: o que “disparadas nos números do setor” significaram no passado
Colocando esta reportagem no contexto dos últimos 4 anos:
| Período | Evento gatilho | Mudança real nos 6 meses seguintes |
|---|---|---|
| 2º tri/2021 | Crypto.com investiu pesado em marketing, volume de transações em cartões disparou | A partir de junho de 2022, as regras de cashback com stake de CRO foram cortadas em mais de 50% |
| 1º tri/2023 | USDC perdeu brevemente a paridade e a fatia de cartões USDT aumentou | Visa suspendeu alguns BINs de cartões cripto, o setor passou por uma reorganização de emissores |
| 2024–2025 | Liquidação em stablecoins foi oficialmente reconhecida pela Visa/Mastercard | Vários emissores lançaram novos produtos para a rota Ásia-Pacífico |
Se os números desta reportagem se confirmarem, o cenário mais parecido é com o de 2021: volume sobe → emissores queimam subsídios para ganhar mercado → 6 a 12 meses depois, cashback e tarifas são reajustados para cima. Não se parece com o de 2023: naquele caso houve um choque regulatório claro (SVB/USDC), e desta vez não há um evento negativo de magnitude equivalente.
Perspectiva regulatória/compliance
O crescimento do volume do setor tende a vir acompanhado de maior atenção regulatória. Por região, vale acompanhar:
- União Europeia: o MiCAR já está em vigor integralmente, com as exigências de transparência de reservas em stablecoin mais rigorosas do setor. Veja compliance na UE;
- Hongkong: após a aprovação da regulamentação de stablecoins em 2024, os emissores precisam reportar dados à HKMA. Veja compliance em Hongkong;
- Japão: a FSA tem exigências rígidas de licenciamento para emissores de stablecoin, mas o lado do uso do cartão é relativamente mais flexível. Veja compliance no Japão;
- Estados Unidos: a legislação federal sobre stablecoins avançou em 2025, mas emissores de cartões cripto ainda enfrentam diferenças regulatórias entre estados. Veja compliance nos EUA.
O limite legal atual é: a liquidação em stablecoins é claramente permitida em jurisdições como MiCAR, Hongkong, Singapura e Japão; alguns estados dos EUA exigem licença MTL para cartões cripto; a promoção/venda dentro da China continental ainda está em zona cinzenta, veja a perspectiva da China continental.
4 pontos a observar daqui para frente
- Se a Cointelegraph vai complementar a fonte dos dados: no cenário ideal, o texto original deveria indicar Visa, Mastercard ou Chainalysis como fonte da metodologia;
- O próximo relatório trimestral da Visa: a Visa costuma divulgar o volume de liquidação em stablecoins em seus relatórios trimestrais. Essa é a fonte mais autoritativa e auditável;
- Anúncios das principais emissoras no 2º trimestre: se os US$ 7,8 bilhões forem reais, é esperado ver, entre junho e agosto, pelo menos uma emissora comemorar publicamente algum marco (prática comum no setor);
- Ritmo de lançamento de novos cartões: a variante MPCard Asia Business e o cronograma de lançamento de novas versões regionais de Bybit/OneKey.
Recomendação editorial
- Quem já tem um cartão: não é necessária nenhuma ação. A mudança no volume macro não afeta se você consegue ou não fazer uma transação hoje;
- Quem está escolhendo um cartão: adicione as páginas oficiais de tarifas de 3 a 5 cartões candidatos do ranking geral 2026 aos favoritos e compare a cada 30 dias — isso é mais útil do que acompanhar qualquer dado macro do setor;
- Quem foca na rota Ásia-Pacífico: a escolha editorial segue sendo a variante Asia Elite do MPCard, veja a avaliação do MPCard. Esse julgamento independe da confirmação dos US$ 7,8 bilhões;
- Usuários de alto valor: antes que a fonte dos dados seja verificada de forma independente, não aumente temporariamente o volume de recarga em um único cartão com base na narrativa de “disparada do setor” — o custo em tempo perdido quando o compliance do emissor é acionado costuma superar qualquer ganho potencial.
Voltaremos a este artigo para atualizar as conclusões assim que o próximo relatório trimestral da Visa for divulgado.